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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Bolívia... e pensar que não queria ir (A coluna de Paula Labaki)


Eis que surge pelo facebook um convite inesperado para representar o Brasil em um evento de gastronomia na Bolívia. Em um primeiro momento aceitei rapidamente, mas com o passar dos dias e a vida corrida como sempre comecei a me questionar se valia mesmo à pena ir. O tempo passando e eu pensando.
O convite foi para dar três aulas, duas de figer food e uma sobre logística de Catering. Além disso, fazer juntamente com os outros chefs convidados dois jantares para 200 pessoas cada. Muito bem, comecei a pensar no meu cardápio e logo de cara pensei em mesclar ingredientes nacionais com ingredientes andinos. Cardápio pronto, vem a notícia: só poderia usar ingredientes de lá. Muito bem, então vamos estudar a Bolívia. Me mandei para uma feira que tem aqui em São Paulo, no Bairro do Pari, uma feira só de bolivianos. Adorei. Encontrei variedades de batata e de milho que nunca havia visto na vida, bebidas, empanadas, cores, sabores e pessoas simpáticas e sorridentes. Era o povo boliviano que mora em São Paulo, pessoas sofridas que trabalham muito e que aos domingos se reúnem para matar um pouco a saudade de sua terra natal. Aí, me abasteci de ingredientes andinos, tive a companhia do amigo João Carlos que foi comigo e me ajudou a descobrir um novo universo de ingredientes.
Comecei então a fazer testes no catering com os ingredientes que havia comprado. Além dos testes, comecei a estudar os costumes alimentares da Bolívia. Com a lista de insumos que teria à disposição lá, montei finalmente o meu cardápio para os jantares, nos quais teria de fazer uma entrada e um prato principal.
Três dias para a viagem e me decidi, com a ajuda do Barão, que me disse “você tem que ir”. E dos meus filhos, que me apoiaram e disseram “vá, que nós cuidamos de tudo aqui. Arrumei a mala e fui, de BOA. Sim, BOA = Bolívia Aerea.
Já no aeroporto de São Paulo encontrei um querido que não conhecia pessoalmente, mas que hoje é um amigo e tanto, o Alessandro Dirienzo, chef italiano que mora em Curitiba e que foi representando a Itália. A viagem foi de muita risada, pois falamos sem parar.
Chegamos a Cochabamba e fizemos conexão para Santa Cruz de La Sierra, onde seria o evento. Fomos recepcionados pelos organizadores, e por chefs que já haviam chegado lá, como Jesus Gibaja (México), Jose Luiz Dolaria (Chile) e Jose Carlos Chumba (Argentina).
No dia seguinte todos os chefs de cozinha já haviam chegado. Fomos aos poucos nos conhecendo e nos enturmando. O espaço onde o evento se realizou era grande e as coisas foram se adequando. Tínhamos ajudantes, estudantes de gastronomia de faculdades de lá, jovens com sede de conhecer novidade e com muita disposição para trabalhar.
Fiz amigos ali que espero levar pelo resto da vida, pessoas queridas de várias partes do mundo. Formamos um grupo unido e trabalhamos muito. Conhecer Ricardo Cortez (Bolívia), que eu já conhecia o trabalho, mas que me encantou pela pessoa maravilhosa que é; Paco Mico, espanhol louco como todos nós, nos encontramos em nossas cozinhas de detalhes e de muitas coisas em comum; Nati Andra (Argentina), uma querida que faz doces como poucos… Enfim todos que ali estavam tinham muito a me ensinar e espero ter deixado um pouco de meu trabalho e conhecimento com eles também.
As aulas foram sucesso, os jantares idem.
Meu cardápio para os jantares:
Entrada - Cebola assada com surubim feito no vácuo em baixa temperatura e servido com salsa de coentro e ovas de truta salmonada
Plato Fuerte Polenta de maiz morada e guizo de lhama
Arrisquei-me no cardápio e acertei, fiquei muito feliz. Trabalhar com a carne de lhama, que nunca imaginei ter nas mãos, foi fantástico - uma carne clara, com aparência de uma vitela, adocicada, porém não com o sabor tão acentuado como das caças. A maiz morada também foi uma surpresa muito legal e foi uma extravagância fazer uma polenta com ela. Logicamente levei meu companheiro fiel, o Thermomix, e do grão inteiro da maiz se fez a polenta. E, além de linda, ficou divina.
Lá conheci lugares lindos, comi bem e me diverti muito. Fiz amigos e cozinhei muito, ensinei e aprendi. Mais uma vez agradeço a Deus trabalhar no que gosto e ter oportunidades como essa.
Agradeço ao povo boliviano e a organização do “Culinaria 2011” pelo convite. Espero em breve voltar.
Amei a Bolívia e suas cores todas.

Paula Labaki

 




sábado, 10 de setembro de 2011

Projeto Buscapé (A coluna de Paula Labaki)

A convite do amigo e também chef Eudes Assis fui para Boiçucanga, no litoral Norte de São Paulo, para dar aula de gastronomia no Projeto Buscapé. É o que seria isso?
Projeto Buscapé foi idealizado por um grupo de pessoas que pensam que nosso futuro depende de nossas crianças e que formação e informação são a única forma de fazer de nossas crianças a diferença ali na frente, no futuro!
Cheguei em Boiçucanga animada, com todos os problemas que havia tido de transporte, carro quebrado o outro batido. Mas sempre tem uma alma maravilhosa, que no caso foi a Mariana Valentino que me salvou e me emprestou o carro dela.
Chegando lá, Eudes e Claudia, também peça importante no projeto, já estavam me esperando e lá fomos nós para o pelotão da Policia Militar, onde no fundo fica o projeto. O pessoal da Policia também esta superdentro do projeto e algumas aulas inclusive são dadas por eles.
Cada dia da semana as crianças têm uma diferente aula e toda quarta feira é dia de… GASTRONOMIA.
Resolvi dar aula de Verrines, porque queria ensinar e depois deixar que cada criança usasse a criatividade fazendo os seus. As crianças foram chegando, colocando seus aventais e chapéus e eu me emocionando de ver tanta alegria nos olhares. Logicamente levei meu companheiro de todos os momentos, o meu Thermomix, nem tanto pelo fato de usar, mas para poder mostrar a eles e fazer com que seus olhares se ampliem. Nem preciso dizer que eles ficaram amigos íntimos do Thermomix. E o mais lindo: ele ficou instalado em cima de um tronco bem rústico. Nossa, juro ficou lindo!
O projeto precisa da ajuda de todos nós, com doações que não precisam ser de dinheiro e sim de material, como utensílios de cozinha que não usamos mais, eletrodomésticos, tudo que pudermos para ajudar a equipar o local e, lógico, se alguém puder doar uniformes, também.
Dei duas aulas para duas turmas de 25 crianças cada, uma pela manhã e outra na parte da tarde. Crianças interessantes, gratas e lindas. Eu amei. As verrines que eles foram fazendo eram lindas, coloridas, cheias de sabores e de cores. A mesa ficou um espetáculo e os olhos de todos nós um brilho só.
Levar às crianças um pouco do que sabemos pode fazer tanta diferença em todas as nossas vidas. E o que mais me deixou feliz é que eles levam a sério - sabe o que é crianças de nove anos sabendo os nomes dos cortes e tudo mais? Só posso parabenizar a todos os envolvidos e agradecer demais ao Eudes pelo convite. Saí de lá cheia de energia nova e iluminada pelo carinho das crianças.
A noite ainda foi uma delicia. Fomos jantar em um restaurante natural de lá, muito simpático e a pousada da Cláudia, que hospeda os chefes que vão ao projeto, é uma delicia, de frente para o mar, um lugar delicious.
Espero que cada um que leia, pense e se possível ajude. Vou deixar o contato do projeto e se quiserem fazer doações de material podem deixar no catering que o Eudes retira e leva para lá.

Paula Labaki


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O mundo precisa de muitos Saburós (A coluna de Paula Labaki)


Em São Paulo sempre ouvia falar do Saburó, de Recife Todos sempre dizendo que eu tinha que conhecê-lo.
Foi então que finalmente fui almoçar na Quina do Futuro, do André Saburó, junto com a querida Lícia Maranhão, chef de cozinha de Recife. Em primeiro lugar vou falar que ele é uma simpatia, daquelas pessoas com as quais pode se passar dias conversando sem dar sono ou tédio. Ele é gente pra mais de metro!
O restaurante é herança de família e ele começou cedo a trabalhar com o pai, que hoje já não esta mais entre nós.
Saburó me levou conhecer tudo e me contava a história do restaurante que antigamente era sua casa. Ele manteve, por exemplo, os lustres no mesmo lugar, uma historia cheia de emoção de um menino que começou cedo a trabalhar e que passou por todas as áreas antes de ser chef de cozinha.
Seus funcionários trabalham sorrindo e com olhar tranqüilo. Ele (Saburó) esta a frente de projetos inovadores, de criação de algumas espécies, atua em uma ONG para pessoas da terceira idade, doando os hashis usados para o feitio de artesanato.
Em seu restaurante tudo chama a atenção, desde o lixo ser pesado diariamente (evitar desperdícios), até o fato de ele ter trazido todos os seus livros e ter montado uma biblioteca para os funcionários. O recebimento de mercadorias, a área de processamento e porcionamento, tudo absolutamente perfeito.
Impressionou-me ele contado das tradições, como, por exemplo, de um tacho que tem mais de 100 anos de história, de um dos cozinheiros, um senhor já de idade que fica elaborando pratos típicos de muitos anos atrás. Tudo ali é admirável!
A comida eu comeria mil vezes, sem nenhuma observação. O cuidado na montagem dos pratos, as texturas e aromas, tudo veio perfeito, com um atendimento de primeira linha -  Saburó mandou preparar uma caipirinha de jambu roxo que é divina, bem aromática.
Ele me levou conhecer o restaurante todo e só posso dizer que sai de lá uma pessoa muito melhor do que entrei e com a certeza que vou voltar. Saburó é, antes de mais nada, um ser humano maravilhoso, um profissional competente e um administrador .O olhar dele confirma tudo isso.
Que todos os seus caminhos sejam de luz.

Paula Labaki

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dias encantados em Ipiabas (A coluna de Paula Labaki)


Polenta de milho de pipoca com galinha D’angola em lascas e crocante de castanhas e talos.
Há uns 30 dias recebi um e-mail do chef Márcio Moraes, me convidando para um Festival em Ipiabas, o I Festival de Gastronomia de Ipiabas, interior do Rio de Janeiro, onde no inicio do século estavam as fazendas de café e seus Barões.
Vi a data e pensei: aperto daqui e dali e vou. Aceitei.
O grupo de cozinheiros foi se formando e eu adorando ver os nomes que apareciam. Amigos queridos, como Guga Rocha, Cássio Prados, Ignacio Brizzi, Célia Rabelo e outros que conhecia apenas de nome.
Ligação e mais e-mails e mensagens e tudo alinhado. Resolvi meu cardápio para a aula e como havia acabado de voltar de Recife quando o convite apareceu, decidi fazer Galinha D’angola e logicamente fiz um pedido para Aves do Campo de Recife, que me enviou de avião as lindas pintadinhas. Mais ligações e a carona estava definida. Guga e eu pegamos uma carona com Cássio e Ignacio.
Chegou a sexta feira da ida. Posso dizer que no caminho ri tanto que cheguei com dor de estômago. E na chegada a busca pela nossa Pousada Chapadão foi motivo de mais muita risada, pois conseguimos andar em círculos numa cidade minúscula e não encontrar a pousada.
Depois da chegada o grupo começou a se reunir. Além dos que já citei, outros se juntaram a nós: Barão (não o dos cafezais e sim o do Barão Gastronomia), João Belezia, Marcie Pinchimel, Márcia Pedrosa e mais pessoas deliciosas de se conviver. O festival era em um casarão do inicio do século, um lugar de sonhos.
Nossa estada começou com um almoço delicioso regado a trutas e seguiu com uma visita à Fazenda Florença, onde me vi na Beira Alta (fazenda onde fui criada). O Brunch que nos foi servido foi uma das delícias da viajem. Duas mesas enormes dispostas lado a lado, uma de comida da senzala e a outra com a comida da Casa Grande. Um espetáculo de cores, aromas e sabores. Saí encantada e o proprietário, o Sr. Paulo, uma verdadeira enciclopédia viva da história da região.
Mas o primeiro dia não acabaria ai, não. Ainda tinha o show do Zé Ramalho (que eu amo). A noite foi de muita festa, o show foi iluminado, cantamos, dançamos e nos divertimos como fazia tempo não acontecia – e, olha, pelo tanto que nós cozinheiros trabalhamos, merecemos isso às vezes.
No sábado, minha aula era a primeira e lá fui eu, com tudo organizado e meu fiel escudeiro, o Thermomix, ao lado. Meu prato foi uma Polenta de milho de pipoca com galinha D’angola em lascas e crocante de castanhas e talos. Fiz a polenta partindo do milho em grão. Foi muito legal e eu fiquei super feliz com o resultado. Durante o restante do dia os amigos foram dando suas aulas e uns ajudando os outros. O clima era de festa e harmonia, lindo!
Devo confessar que fazia anos que não me sentia tão feliz e à vontade com pessoas tão queridas.
Cada um com um prato e um estilo diferente, o que só enriquecia o evento. Barão fez um Jacaré maravilhoso, Cássio deu uma super aula de Molecular, Ignacio apresentou técnicas, Márcia e sua comida de Goiás, Belezia com pequenas delicias, Célia com o seu famoso Pacupizza (que virou hit e agora até pensamos em montar uma Pacupizzeria)
Queria agradecer ao Márcio pelo convite, dizendo que momentos como esses ficam para sempre em nossos corações e as pessoas que conheci lá já fazem parte de minha vida.
Ahhh e preciso lembrar ao Barão que vou passar um mês lá na cozinha dele (rsrsrs).
Voltei iluminada, feliz e com mais conteúdo, pois esta troca sempre nos renova e nos traz idéias novas.
Peço desculpas pelo atraso dos meus textos, mas tenho corrido mais do que deveria. Amo este espaço que o Luiz me empresta e espero que entendam.

Paula Labaki

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Operação Barracuda (A coluna de Paula Labaki)


Estive no Recife no começo de abril para dar duas aulas. Agora voltei. Um dos motivos: cozinhar na Barracuda.
E o que é Barracuda? É um quiosque gourmet na praia de Boa Viagem, com um mar lindo como fundo, proprietárias mais que simpáticas e que nas quartas-feiras convidam um chef para cozinhar. Nesta quarta que passou esse chef fui eu, felizmente.
O convite veio de um papo com o amigo Duca Lapenda (chef e proprietário do Pomodoro Café, no Recife), que falou com Ana Claudia Lins, uma das proprietárias, e o convite foi tomando forma. Como já estava mesmo para vir por conta do Recife ao Vivo da revista Prazeres da Mesa, foi tudo se encaixando.
Queria um cardápio que pudesse usar ingredientes aqui do Pernambuco e aí as ideias foram surgindo.
Passagens na mão e eis que o vôo estava lotado de chefs amigos, o pessoal da revista. Passei a viagem toda num papo animado com o Eudes Assis (chef do restaurante Seu Sebastião, de Maresias-SP) e ao chegar ao Recife o amigo (e chef) André Falcão me pegou no aeroporto, fomos almoçar no Parraxaxa, um restaurante típico, muito bacana.Curiosidade: a cerca em volta é toda feita em marmelo, finalizada com cascas de ovo - dizem que a casca de ovo no interior de Pernambuco é utilizada pra afastar o mal olhado.
À noite, inauguração do Recife ao Vivo e depois La Pasta Galleria, do André, um restaurante italiano, pequeno e super charmoso, dentro da galeria Joana D’Arc,  onde existem vários restaurantes. E foi ali, naquela cozinha, que no dia seguinte fui fazer meu mise en place para o jantar na Barracuda.
Contei com a ajuda da querida Andréia Casagrande, que ficou comigo desde o começo até terminar tudo.
Chegou a hora de ir para a Barracuda. Ana Claudia Lins, que me abrigou em seu apartamento delicioso com vista para o mar lindo do Recife, já estava me esperando lá.
O Caldinho de feijão verde.
No cardápio que montei tinha Caldinho de feijão verde com crocante de coentro e chip de charque, Moqueca de pupunha com creme de cajá, arroz de coco e farofa de castanhas e, pra terminar, um Creme de rapadura com terra de chocolate. Adorei usar o feijão verde, ele é muito saboroso e sua textura perfeita para o que eu queria. Quanto ao chip de charque, descobri que tenho que primeiro tirar um pouco o sal para depois fazer o chip, pois o sal se potencializa na desidratação.
Só posso dizer que foi uma noite divina. Trabalhamos rindo e nos divertindo, a chuva ia e vinha e a calçada era pura festa, vários amigos, pessoas desconhecidas e assim foi a noite toda. O cardápio foi aprovado e eu só sorrisos.
Creme de rapadura do terra de chocolate.
Na minha bagagem logicamente coloquei meu Thermomix e meu mais novo mimo, o kit de sais que fiz. Meus sais ganharam Recife. Sim, gostaram mesmo e conheci mais um envolvido com sais, que trabalha com sais do mundo todo, o querido Gustavo Aciolly (proprietário da marca Kook, que comercializa sais do mundo todo), que adorou os meus e eu aos dele. Vamos trocar ainda muita figurinha salgada.
Foi uma noite deliciosa. E era só o começo dos meus dias no Recife.
A Barracuda é imperdível para quem vem a Recife e para quem é do Recife. Um quiosque cheio de charme em plena praia de Boa Viagem e que serve o inusitado para uma barraca de coco - quitutes gourmet, espumantes e por ai vai, não dá pra perder. Já sou uma Barracuda e isso me torna quase uma Recifense.
Outra coisa que gostaria de salientar é que a gastronomia esta super aquecida no Pernambuco. Cozinheiros mega-competentes, lugares lindos e pessoas dispostas a mostrar uma boa gastronomia. Volto encantada e com muita coisa para contar. Poderia citar nomes de chefs fabulosos que conheci, mas corro o risco de esquecer algum e não vou correr este risco porque todos me encantaram de alguma forma.
Obrigada Ana Claudia Lins pelo convite, Duca pelo carinho de propor meu nome e André Falcão por ceder sua cozinha para eu trabalhar. E não poderia esquecer Guga Pedrosa (um dos idealizadores do Barracuda) pelo café da manhã plural.

Paula Labaki

twitter@lenalabaki